O mercado global de hidrogênio limpo vive um momento de transição: após uma fase marcada por euforia e anúncios em larga escala, o setor avança agora para um estágio de execução mais racional e seletivo. Levantamento da Associação Brasileira do Hidrogênio Verde (ABIHV), com base em dados internacionais, mostra que mais de 500 projetos seguem em decisão final de investimento (FID), construção ou operação no mundo, somando cerca de US$ 110 bilhões em investimentos, enquanto uma parcela menor passou por reavaliações ou cancelamentos recentes.
De acordo com a ABIHV, aproximadamente 52 projetos globais foram cancelados ou revistos. Longe de representar uma crise sistêmica, o movimento reflete um processo natural de depuração do mercado, no qual projetos menos maduros ou desalinhados com a realidade de custos, financiamento e regulação acabam ficando pelo caminho.
A análise aponta que os projetos que avançam até o FID compartilham três pilares fundamentais: demanda firme com contratos de offtake, marcos regulatórios claros e estruturas de financiamento consistentes. Já entre os principais fatores que levaram à interrupção ou revisão de projetos estão entraves regulatórios e de licenciamento, incertezas políticas e de mercado, custos elevados, dificuldades de financiamento e ausência de demanda contratada.
Esse novo cenário tem levado grandes empresas globais a adotar a estratégia conhecida como “Fill, Hold and Fold”: priorizam projetos estratégicos com melhor combinação de recurso, infraestrutura e mercado; mantêm outros em espera até maior clareza regulatória; e cancelam iniciativas incompatíveis com o atual contexto econômico e financeiro. Para a ABIHV, esse comportamento reforça a importância de critérios de maturidade e planejamento realista.
No caso brasileiro, o estudo destaca uma oportunidade relevante, especialmente para o Nordeste, que reúne vantagens competitivas como potencial renovável, localização estratégica e infraestrutura portuária. Para que o país avance da fase de projetos para a industrialização do hidrogênio verde, a entidade aponta a necessidade de combinar instrumentos de estímulo à demanda como mandatos, metas setoriais e compras públicas, leilões bem desenhados com critérios técnicos e financeiros robustos e a oferta de capital catalítico para reduzir riscos.
A ABIHV alerta que a ausência de offtakers domésticos com contratos de longo prazo, dúvidas regulatórias sobre certificação e rastreabilidade do atributo “verde” e o alto custo de capital ainda são entraves relevantes no Brasil. Experiências internacionais mostram que leilões baseados apenas no menor preço tendem a gerar uma “bolha de anúncios”, sem conversão em projetos reais. Por isso, a associação defende exigências mínimas de maturidade, incluindo licenciamento em estágio avançado, estudos de viabilidade consolidados, equity comprometido e negociações comerciais em curso.
Para 2026, a ABIHV recomenda uma agenda estratégica focada na criação de demanda interna, no fortalecimento de instrumentos financeiros e na integração do hidrogênio verde à política de neoindustrialização do país. A entidade ressalta que o maior valor para o Brasil está no desenvolvimento de cadeias produtivas completas, como aço verde, fertilizantes de baixo carbono e combustíveis sustentáveis para transporte marítimo e aviação, e não apenas na exportação da molécula. Para a associação, o momento é decisivo para transformar potencial em realidade.